Banco Sertãozinho
Materiais e acabamentos
Assento em cerâmica de alta temperatura. Estrutura em madeira maciça da espécie sucupira.
Descritivo
Há uma contra dicção no dito Sertãozinho deste banco, pois o diminutivo “inho” desdiz o superlativo do “ão”. E isso aqui se diria da cerâmica e da madeira, suas qualidades opostas a conjugarem-se harmonia num objeto de visualidade e textura desconcertante. Aqui também se contradiz o artesanato, como se fosse dele que disséssemos se tratar, mas destratamos das facilidades e dos aparentados. Se pois do design faz caso, ao amarrar estruturalmente o engenho que é bem seu, pois também que nos assentamos e depois mais nada daquilo se acentua das engenhocas habituais preteridas. Quando se resta aqui no que percebemos um ser da artesania dos oleiros e carpinteiros, a evocação da sabedoria nem dar-nos-á aberturas à precariedade folclórica ou ao sonambulo primitivismo.
A retórica do Sertão no Brasil, tão própria do Ser que nos habita, hoje adjetiva-se em desusos e descaminhos, e nada mais próprio do que reivindicar lendária riqueza. Faz as vezes de mestre este Ramsés em libações de secura medida e ajuizada. Tirante também na lábia eloquente que negocia metafísicas em cacarecos de profunda pobreza, se espraiando na capenguice curatorial, o que tudo se apagará agora. Aqui o sertanejo faz a estatura mor do banquinho, dando ao usual de um corpo agachado a grandeza épica do desenho, solução maior de traves em construção e geometria memorável, trama e engaste. Tudo soa e range na memorável matéria que nos acaricia neste tamborete, pois se a madeira cruzada do encaixe ocidental prevalece elevando-nos como uma religião, colonial desde o princípio do que somos, a arqueologia do barro cozido nos devolve o corpo ao tempo arqueológico pré-colombiano, a liberdade ancestral incorporada. Há algo aqui dos bancos amazônicos, invisivelmente sustentados na aderência à pele que faz conforto e fortuna, sua porosidade argilosa, o recobrir de sentidos e seu recobrar em percepções. Os ardilosos pisos frescos do casario ou da terra batida, se tudo aqui respira depois de cozida a terra e aflorada como um pulmão aerado de frescor. Sentimos um cheiro que nos perfuma a alma, e respiramos contemplativamente o objeto.
Afonso Luz, filósofo e crítico de arte.
